Heráclito

Os modernos historiadores do pensamento grego costumam tratar Heráclito como o primeiro filósofo a propor uma visão dialética do mundo. No século XIX, Hegel apontou-o como um precursor de suas próprias concepções.

Heráclito nasceu em Éfeso, por volta de 540 a.C. Ridicularizava os cultos e ritos de seu povo e, por ter um estilo de difícil compreensão, foi cognominado "o obscuro". Da obra que lhe é atribuída, restam apenas alguns fragmentos do livro Peri physeos (Da natureza), que se dividiria em três partes: o universo, a política e a teologia.

As histórias da filosofia apresentam Heráclito como um dos pensadores pré-socráticos, de posições opostas às de Parmênides. Se este era o filósofo do ser, Heráclito era o do vir-a-ser, do devir. Para ele, tudo está em contínuo movimento, tudo flui. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, porque tanto a água como o homem mudam incessantemente. Na interpretação de pensadores do século XX, no entanto, não há efetiva oposição entre Heráclito e Parmênides, já que o primeiro fala do cosmo em mudança incessante, ao passo que o segundo se refere ao ser supracósmico, o princípio supremo subtraído à mudança, que coincide com o logos de Heráclito.

Todas as coisas constituem o um, que, submetido a uma tensão dialética interna, desabrocha por sua vez no múltiplo, que se reduz à unidade. Calor e frio, bem e mal, noite e dia são simultaneamente múltiplos e unos, pois constituem metades indissociáveis de uma mesma realidade. A guerra, entendida como pura dinamicidade, é mãe e rainha de todas as coisas. A oposição entre contrários define-se como a própria força criadora do real.

Segundo o critério e o método filosófico da escola jônica, Heráclito buscava um princípio único, o arkhé, de que todas as coisas foram feitas. Essa substância fundamental, em sua obra, era o fogo, definido como mobilidade e inquietação. O próprio ar transforma-se em outros elementos e estes, em mudanças sucessivas, chegam ao fogo. Tais mudanças, porém, não se fazem ao acaso. A marcha e a ordem dos acontecimentos são guiadas pelo logos, essência racional do Universo, expressa pelo fogo. Do ponto de vista ético, a virtude consiste na subordinação do indivíduo a essa razão universal. O mal, segundo Heráclito, está em que muitos querem viver como se fossem seu próprio logos, isto é, o centro dos acontecimentos. Heráclito morreu em Éfeso por volta de 480 a.C.

     
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