Filosofia Islâmica

O pensamento árabe representou, em suas mais remotas origens, uma dinâmica projeção dos grandes sistemas filosóficos gregos, ainda que vazado em língua semítica e fundamente modificado sob a influência oriental. A dimensão desse fato torna-se imensa quando se considera que o Ocidente deve aos filósofos árabes quase toda a preservação, já em nível crítico, do platonismo e, sobretudo, do aristotelismo.

Filosofia islâmica é o pensamento expresso em língua árabe e intimamente relacionado à religião muçulmana que floresceu entre os séculos VII e XV. Excluem-se dessa denominação as tendências modernas e contemporâneas da filosofia árabe, analisadas apenas como floração do Oriente dentro e fora dos limites da Idade Média latina.

Na origem e, a rigor, ao longo de toda a sua evolução, a filosofia árabe transmite ao mundo ocidental os fundamentos de quase todo o pensamento filosófico do Renascimento, em particular na Espanha e na Itália. Sem a contribuição dos comentadores árabes, o Renascimento seria depositário apenas do monólogo cristão da Idade Média. Seria correto dizer que os próprios pensadores medievais, em particular os tomistas, pagaram pesado tributo a esses ousados "heréticos" orientais.

Seitas e Escolas Teológicas

Em seus primórdios, a filosofia árabe foi principalmente uma filosofia de teólogos, que devem tudo às crenças e tradições religiosas muçulmanas. Até o século IX, as especulações filosóficas do mundo árabe restringiam-se às discussões teológicas das primeiras seitas e escolas ascéticas, cuja suprema preocupação residia no exame de questões éticas e morais. O primeiro grande representante dessa época e notável cultor da reflexão moral de índole teórica foi Hasan al-Basri, que integrou o grupo chamado Companheiros do Profeta, responsável pelo início da maioria das discussões teológicas que logo se cristalizariam na constituição de seitas e escolas teológicas, como as de Antioquia (século III), de Nasibim, em comunidade de fala síria, e de Nasibim-Edessa, a principal delas, que floresceu entre os séculos IV e V e reuniu os nestorianos condenados como heréticos pelo Concílio de Éfeso (431). A esses nestorianos somaram-se depois outras seitas igualmente heréticas, como as dos monofisistas (responsáveis pela introdução do misticismo e dos ideais neoplatônicos), dos zoroastrista persas, dos pagãos de Harran e até mesmo dos judeus.

Tais seitas e escolas - no interior das quais se destacavam os nomes de Alfarabi, Avicena, Avempace, Abubaker e Averroés, os três últimos já na Espanha - dedicaram-se inicialmente a debates de questões como os atributos divinos e os conflitos entre a predestinação e o livre-arbítrio. Contribuíram consideravelmente para a concretização de uma reflexão filosófica que já se poderia dizer autônoma, cujo expoente supremo foi Alkindi, que viveu no século IX. Toda essa estratificação orgânica da filosofia árabe tornou-se possível, em grande parte, graças à transmissão ao universo muçulmano de consideráveis vertentes dos sistemas gregos, sobretudo o aristotelismo e o neoplatonismo, o que se deve à versão síria do helenismo, à atividade filosófico-religiosa dos nestorianos, ao misticismo dos teólogos monofisistas egípcios, e finalmente, às traduções muçulmanas das versões sírias dos textos gregos.

De Avicena e Algazali

Herdeiro das tradições aristotélico-platônicas de Alkindi e, principalmente, de Alfarabi, Avicena foi o mais ilustre dentre todos os muçulmanos orientais. Segundo ele, o conhecimento forma-se a partir da realidade dos objetos conhecidos, desde a consciência dos princípios primordiais até a revelação escatológica, passando pelos princípios universais ou ideais. Sua sistematização da especulação interior é de capital importância para a filosofia escolástica, que absorveu de Avicena pelo menos três noções básicas: a da existência enquanto acidente que se associa à essência; a que se relaciona ao conceito da unidade do intelecto agente, constituída à custa da ascensão da potência no ato do entendimento; e a da distinção entre a essência e a existência nos seres criados, equivalente à união destes em Deus. Além da contribuição de ordem metafísica, o avicenismo proporcionou ainda significativas modificações no campo da lógica, em que conciliou diversos aspectos dos modelos aristotélicos e estóicos.

Como os predecessores, Avicena tentou harmonizar, em suas várias obras, as formas abstratas da filosofia com as tradições religiosas do islamismo. Tal pretensão, porém, falhou em muitos pontos, o que deu origem às críticas movidas contra ele por Algazali, cujo ceticismo racionalista, particularmente visível em sua Tahafut al-falasifa (Autodestruição dos filósofos), opõe-se tanto ao aristotelismo avicenista quanto ao neoplatonismo dos demais filósofos árabes. Em outras palavras, Algazali não admite racionalização helenizante das crenças religiosas. Seu Deus é o Deus do homem religioso, e não o do intelectualismo avicenista.

Filosofia Árabe na Espanha

Paralelamente às doutrinas desenvolvidas por Avicena e Algazali, destacam-se aquelas que, a partir do século XI, foram disseminadas pelos pensadores muçulmanos na Espanha, onde sobressai o nome de Averroés, o maior dentre todos os filósofos árabes. Antes dele, distinguiram-se o filósofo judeu Avicebron, Abubaker (autor de um curioso romance filosófico) e, sobretudo, Avempace, que descreveu o itinerário seguido pelo homem para reunir-se ao intelecto agente, substância una e comum a todos os entendimentos possíveis. É essa, ainda que obscuramente expressa, a doutrina da unidade do intelecto, cujo maior nome foi Averroés.

A obra de Averroés - que, como seus predecessores, procurou conciliar filosofia e dogma - representa a maturidade e a culminância da tradição aristotélica no pensamento muçulmano da Idade Média latina. Esse trabalho teve grande influência sobre a escolástica. Em essência, o averroísmo sustentava a eternidade do mundo, que, por haver sido criado por Deus, não tinha na eternidade uma contradição. Esse mundo criado e eterno teria surgido por emanação do primeiro princípio criador, mas sua eternidade exige também a eternidade da matéria, na qual subsistiriam, desde sempre e enquanto possibilidades, as formas extraídas por Deus para formar as coisas, e não introduzidas na matéria. A essa eternidade da matéria reagiram Tomás de Aquino e os antiaverroístas. A doutrina de Averroés, no entanto, iria marcar ainda três outros momentos históricos: no princípio do século XIII (com o averroísmo latino de Siger de Brabante), no final desse mesmo século (por meio de Duns Scotus, Pietro d'Abano, Marsílio de Pádua e outros) e na segunda metade do século XV (com os averroístas da Universidade de Pádua). Ao século XV pertence também o último valor expressivo da filosofia árabe, Aben-jaldun, de tendência neoplatônica.

     
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