Filosofia Contemporânea

Em reação a tão dispersas propostas e posições filosóficas vindas à luz nos anos anteriores, as primeiras décadas do século XX assistiram a um profundo debate sobre a natureza, objetivos e métodos da filosofia. De maneira geral, esse debate deu lugar à formulação de duas grandes orientações no pensamento contemporâneo: a filosofia analítica, interessada sobretudo nas relações entre filosofia e ciência e na formalização da teoria do conhecimento, e as filosofias humanistas ou existenciais, para as quais o homem é o objeto fundamental de reflexão. Entre essas, no entanto, surgiriam numerosas doutrinas intermediárias com tendência a empregar elementos de ambas as correntes. O apogeu das ciências sociais, embora tenha levado à especialização das áreas de estudo, motivou também o surgimento de novas teorias interdisciplinares, baseadas na integração dos conhecimentos proporcionados pelas diversas ciências.

A expressão filosofia analítica abrange um conjunto de correntes de pensamento que entendem a filosofia basicamente como análise dos termos da proposição filosófica. A lógica e a linguagem ganham muita importância para essas correntes, já que para elas muitas questões filosóficas podem ser resolvidas ou "dissolvidas" mediante a análise dos termos em que elas estão expressas. Na origem desse movimento estão, ao lado dos britânicos Bertrand Russell e G. E. Moore, os positivistas lógicos da escola de Viena, que conceberam a filosofia como trabalho epistemológico cujo objetivo é elucidar as afirmações suscetíveis de demonstração segundo critérios lógicos ou empíricos, e excluir as "pseudoproposições" metafísicas indemonstráveis.

Figura fundamental no pensamento filosófico analítico foi Ludwig Wittgenstein que, a partir de um atomismo lógico próximo da escola de Viena, evoluiu até a análise dos usos lingüísticos e deu origem às chamadas "escolas da linguagem comum" de Cambridge e Oxford. Cabe assinalar, não obstante, que a atitude fundamental de Wittgenstein sobre o objeto da filosofia, que consiste "não em produzir uma série de proposições filosóficas, mas em esclarecer essas proposições", não variou no curso de sua obra e constitui um paradigma central de toda a filosofia analítica, herdeira da tradição empírica.

Entre os movimentos filosóficos mais especulativos, merece destaque a fenomenologia de Edmund Husserl, voltada para a determinação da "essência" das coisas mediante a análise descritiva de sua apresentação à consciência. O propósito último do método fenomenológico seria, portanto, indagar as estruturas essenciais sobre as quais se erigem as noções científicas e os critérios de valor. O existencialismo, que estabeleceu a existência humana como eixo de toda a reflexão filosófica e influiu sobre a renovação do pensamento cristão, usou elementos da fenomenologia e das concepções irracionalistas do século anterior, enquanto diversas filosofias intuicionistas e vitalistas -- Henri Bergson, José Ortega y Gasset -- tentaram encontrar princípios comuns que pudessem explicar tanto a consciência quanto a natureza. A influência do marxismo, com sua proposta de transformação social, e da psicanálise, que revelou facetas insuspeitadas da natureza humana, foi profunda e recorrente no pensamento filosófico do século XX.

Além de persistirem as tendências citadas, na segunda metade do século XX surgiram diversas doutrinas baseadas na integração de elementos extraídos de diferentes escolas e disciplinas. Assim, Jean-Paul Sartre conciliou marxismo e existencialismo, os pensadores da escola de Frankfurt tentaram uma síntese de marxismo e psicanálise e o estruturalismo elaborou uma visão abrangente das estruturas da realidade sobre dados proporcionados pela lingüística, pela antropologia e pela psicanálise. Dentro de sua extrema variedade, em resumo, caberia definir como traços característicos da filosofia contemporânea seu interesse pelos problemas da linguagem, o simbolismo e a comunicação, e sua busca de novos instrumentos conceituais capazes de levar a reflexão sobre a natureza humana a uma dimensão aberta às transformações sociais e às novas concepções científicas.

     
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