Neoplatonismo

Mais que simples retomada das idéias de Platão -- que sustentava existirem dois mundos: o visível, objeto dos sentidos, e o das idéias, objeto da inteligência -- e ao contrário do que o nome pode sugerir, o neoplatonismo foi uma verdadeira refundação da metafísica clássica.

Última grande corrente filosófica da Grécia antiga, o neoplatonismo é a doutrina que se definiu no século III da era cristã e predominou na filosofia pagã do período tardio da antiguidade, até o ano 529. Na época, três correntes ideológicas disputavam a primazia: o cristianismo, em ascensão; as religiões politeístas do paganismo; e as correntes filosóficas gregas e, em particular, o estoicismo.

O grande expoente do neoplatonismo foi Plotino, que elaborou a teoria da emanação ou panteísmo neoplatônico, segundo a qual o ser divino e o mundo são, em última análise, idênticos. Para Plotino, o mundo não foi produzido do nada, mas emanou do próprio Uno, Divindade e Bem Supremo do qual procedem por emanação todas as coisas.

Do Uno deriva, primeiramente, o nous ou espírito, explicação de todas as coisas ao nível ideal e que equivale claramente ao mundo das idéias platônico. Do nous emana a alma, nome genérico que abrange três níveis distintos e hierarquizados: a alma suprema, que permanece em estreita união com o nous; a alma do todo, criadora do universo físico; e as almas particulares, que animam os corpos, os astros e todos os seres vivos.

O mais inferior grau da emanação divina é a matéria, ou o mundo perceptível pelos sentidos. Plotino afirma que, ao chegar a esse nível extremo, a potência do Uno está enfraquecida a ponto de exaurir-se. A matéria sofre, pois, a privação do Bem Supremo e pode-se-lhe chamar de mal - não uma força negativa autônoma que se opõe ao bem, mas a ausência do bem.

Se der atenção apenas a seu corpo, o homem - alma (preexistente) que habita um corpo - se vincula ao mal e esquece suas origens. A alma precisa despojar-se da ilusão da matéria, e só o consegue por meio do êxtase místico, no qual é exaltada e preenchida pelo Uno. Esse êxtase não é um dom gratuito de Deus, mas fruto do esforço do homem para unir-se à Divindade.

Amônio Sacas, fundador da escola de Alexandria (em torno do ano 200), foi o mestre com quem Plotino estudou por 11 anos (de 232 a 243) e de quem recebeu influência decisiva. Em 244, Plotino mudou-se para Roma e fundou sua própria escola. Após ensinar por dez anos, escreveu 54 tratados, posteriormente dispostos em seis grupos de nove por seu discípulo Porfírio, que deu à obra o título de Enéadas.

Outras escolas neoplatônicas se formaram, como a da Síria, fundada por Jâmblico, pouco depois do ano 300; a de Pérgamo, fundada por Edésio, discípulo de Jâmblico; a de Atenas, iniciada por Plutarco entre os séculos IV e V, que teve em Proclo seu representante mais insigne. Com o célebre edito de 529, Justiniano proibiu o funcionamento das escolas filosóficas de Atenas. O neoplatonismo persistiu ainda na segunda escola de Alexandria, que renascera na mesma época da fundação da escola de Atenas e sobreviveu até princípios do século VII.

     
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