Cabala

Muitos vêem a cabala, erroneamente, apenas como sistema de manipulações mágicas. Em certas épocas esse aspecto teve papel preponderante, mas a cabala nunca deixou de ser função de uma busca filosófica da compreensão de Deus, dos mistérios do universo e do destino do homem.

Cabala, além de seu sentido genérico de tradição oral -- as interpretações dos textos sagrados, expressos na torah shebeal pe (doutrina oral) -- é um conjunto de preceitos e especulações místico-esotéricas da filosofia religiosa judaica, sob a influência de outras doutrinas. Começou a cristalizar-se a partir do início da era cristã, definindo-se no século XIII como sistema filosófico-religioso. O pensamento judaico sempre foi interpretativo dos textos bíblicos, deles procurando extrair significados ocultos. A cabala originou-se na kabalah (tradição), iluminada por um misticismo exacerbado que acabou por assumir o primeiro plano para ganhar os valores de um sistema conceitual.

Primórdios da tradição

Data dos séculos I e II da era cristã a primeira manifestação da tradição cabalística: é o maasseh merkavah (história do carro), mencionado no livro de Enoque, uma das duas estruturas, junto com o maasseh bereshit (história da gênese), nas quais repousa toda a cabala. Esta é uma especulação sobre o mundo das coisas e sua criação; aquela, um sistema metafísico que aponta os atributos divinos como causa de tudo.

A merkavah, o carro celeste da visão do profeta Ezequiel, que percorre os sete céus através de inúmeros perigos, é uma alegoria da elevação da alma à procura de Deus. Essa gnose é oriunda do exílio na Babilônia, e seus cultores, aqueles que se dispunham à grande aventura, são chamados iordei merkavah.

Fundamentos da doutrina

Do século III ao século VI a especulação cabalística já dominava o pensamento judaico na Babilônia. Nessa época surgiu o Sefer ietzirah (Livro da criação), escrito em hebraico por autor desconhecido, que trata da origem do universo e das leis que o regem. Em um monólogo do patriarca Abraão revela-se a compreensão da natureza e de suas manifestações como emanações de Deus.

Os vários planos da criação formam dez esferas (sefirot). O espírito tornado Palavra (análogo ao Verbo) é a primeira esfera e, por meio do sopro, a segunda esfera, que dele emana, cria as demais através de combinações de letras e números: a água é a terceira, que produz a terra, o barro, as trevas, os elementos rudes; o fogo é a quarta; as seis últimas são os quatro pontos cardeais e os dois pólos.

O Sefer ietzirah já encerra a preocupação cabalística com a manipulação de letras e números na interpretação de significados ocultos e na prática da magia. Os 32 caminhos místicos são constituídos pelas 22 letras do alfabeto hebraico e dez algarismos, que podem ser combinados e interpretados de três maneiras: notarikon, que cria significados ao tomar as palavras por acrósticos de expressões ocultas; guematria, que atribui valores numéricos às letras, estabelecendo analogia entre palavras de valores iguais; e temurah ou permuta, que manipula palavras por anagramas.

Cabala medieval

Na Idade Média o centro do judaísmo deslocou-se da Babilônia para a Europa. Na Provença, Abraão ben David de Posquières escreveu um comentário ao Sefer ietzirah. Seu filho Isaac, o Sagui Naor, foi considerado "pai da cabala", sendo-lhe atribuída uma obra de fundamental importância, o Bahir (claro, brilhante).

A obra que viria a ser o cânone da cabala surgiu porém na Espanha do século XIII; o Sefer ha-zohar (Livro do esplendor), ou, simplesmente, Zohar. Foi a partir de sua divulgação que a cabala ganhou dimensão de movimento organizado a doutrina sistematizada. Já atribuído ao rabi Simão bar Iochai, o Zohar parece ser na verdade uma compilação de várias obras, feita por Moisés ben Shem Tov, de León. Seu texto constituiu-se aos poucos, sendo completado entre 1275 e 1286, e só foi impresso, na versão original em aramaico, em 1558 em Mântua. Como em toda a cabala, vários conceitos se fundem no Zohar: um panteísmo de influência neoplatônica, idéias nitidamente teístas, elementos de feitiçaria e demonologia medievais, linhas de exegese inspiradas pelo racionalismo judaico.

O Ser infinito ou Ein Sof, segundo o Zohar, difere do Deus-Criador das escrituras: é a substância, a causa imanente, o princípio ativo e passivo de tudo. O Ein Sof desconhece a si mesmo até que suas emanações se constituam em atributos através de dez sefirot -- esferas que são projeções espirituais desses atributos, e não formadas pelos planos da Criação, como as esferas do Sefer ietzirah. No Zohar, as dez sefirot assumem uma imagem antropomórfica, formando a figura do Adam Kadmon: é o demiurgo, o criador da natureza. Essa imagem do Adam Kadmon corresponde à do homem perfeito que é o mensageiro de Deus, o messias.

Veja também:
A Cabala em Safed

     
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