Alma

A noção de alma como "sopro", princípio ativo do corpo, acha-se em quase todos os povos e culturas, tornando-se objeto de constante elaboração filosófica, desde os pitagóricos até a teologia contemporânea ou a psicanálise de Jung.

Definida como elemento vital e espiritual do ser humano, a alma foi sempre um dos problemas mais constantes da maior parte das religiões e filosofias de todos os tempos. Diversas manifestações religiosas encontraram nela seu interesse principal, como o animismo e o espiritismo, e também algumas correntes filosóficas, especialmente as originárias do platonismo, que defendia a imortalidade da alma e a metempsicose (transmigração das almas).

O dualismo inerente à abordagem platônica é uma herança do orfismo e do pitagorismo: a alma pertence à esfera divina, ao mundo das idéias e das formas, confundindo-se com estas e sendo, por isso, eterna, imortal, indestrutível. "O corpo é a prisão da alma", ensina Platão, correspondendo ela, assim, a uma entidade oposta à existência corpórea, a que só pode chegar através da "queda".

Para os profetas e pensadores hebreus, "a personalidade do homem era um corpo animado, não uma alma encarnada", mas o platonismo chegou a exercer maior influência sobre os filósofos cristãos do que a tradição hebraica: a patrística foi quase totalmente dominada pela síntese platônica, que, com o tempo, se tornou parte da doutrina, da prática, da liturgia e da hinologia cristã.

A escolástica representa mais um passo adiante: para santo Tomás de Aquino, a alma é a forma substancial do corpo. Escolásticos posteriores ensinaram, todavia, que existe uma outra forma do corpo além da alma. Esta, para eles, é bastante simples, mas possui "faculdades", que são como seus acidentes. Cada experiência acrescentaria à alma uma nova forma acidental. Por suas muitas implicações, o problema não é esquecido por Descartes, que na VII Meditação do Discours de la méthode (Discurso sobre o método), afirma ser a alma uma questão tão importante quanto a de Deus.

A teologia protestante incorpora vários desses aspectos, desde Martinho Lutero, que em Das Magnificat (1521) mostra que as Escrituras dividem o homem em três partes e que "a alma é o mesmo espírito... contudo, em outra operação. O espírito é a casa onde habita a palavra de Deus, e a alma faz que o corpo tenha vida." Na mesma orientação bíblica, o calvinista suíço Emil Brunner sustenta que não é a alma que distingue o homem como homem, mas a mente e o espírito. Para ele, o fato de se considerar a alma como base do espírito -- e unida a este até a identidade -- é que faz mais complexa a relação entre ambos. Segundo Brunner, a alma une o homem com o mundo da natureza e das coisas por intermédio do corpo, o qual relaciona a pessoa humana com o mundo.

O texto bíblico não oferece nenhuma base para a concepção dicotômica e tricotômica do homem. A alma, na Bíblia, não corresponde a uma parte do ser humano, mas ao homem em sua manifestação de ser vivo, não no sentido biológico simplesmente, porque a alma é a vida humana de um ponto de vista individual, referindo-se a um sujeito de vista individual, referindo-se a um sujeito consciente e voluntário. Nessa perspectiva, o teólogo suíço Karl Barth é ao mesmo tempo aristotélico e bíblico, quando afirma: "O homem é a alma de seu corpo, a alma racional guiando o organismo vegetativo e animal que está a seu serviço. Mas é um só e o mesmo ser, não dois domínios separados; trata-se sempre de um todo, do homem." Outro teólogo protestante, Rudolf Kittel, acentua igualmente a unidade da natureza humana. Essa é também a direção da teologia católica mais recente, quer em seu novo catecismo, quer na orientação divulgada pelo concílio ecumênico Vaticano II.

Identificada com animais em diversas mitologias, a alma, ou sua noção, foi inteiramente rejeitada por materialistas modernos. "Teoricamente uma tolice" para Ludwig Feuerbach, reduz-se a funções cerebrais cada vez mais conhecidas, para outros autores. Jung, no entanto, conservou o uso da palavra como sinônimo de psique, para a parte mais imaterial da personalidade humana.

     
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